A idealização do atendimento e a inexpressão da individualidade

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Eu sempre senti um incômodo pela pressão social para nos padronizarmos, pensarmos e agirmos iguais. Essa pressão acontece diariamente em situações diversas e dentro do ambiente profissional não é diferente. Vivemos uma cultura de enganos e idealizações onde a realidade deve ser disfarçada em um padrão mais confortável de experiência; onde a satisfação do cliente só parece ser completa se vendermos a ele o que nós, como sociedade, idealizamos: um mundo sem problemas, ou, pelo menos, de fachadas bem pintadas para que os problemas não se mostrem.

Essa visão absorvida pelas organizações faz com que, na busca por oferecer um serviço de qualidade aos clientes, elas, muitas vezes, transformem seus funcionários em manequins com funcionamento programado. Um lugar onde isso é facilmente observado é nos aeroportos, reduto tradicional das classes mais abastadas, sedentas por serem servidas pelos funcionários perfeitos. Então, logo vemos as funcionárias vestidas impecavelmente, com os cabelos cuidadosamente penteados, um sorriso persistente no rosto, daquelas que parecem viver em um universo paralelo de serenidade e bom humor infinitos.
Claro que, todos nós, clientes, queremos – e merecemos – ser bem tratados e assistidos e ter nossas preocupações resolvidas em tempo hábil,  mas o que toda essa estética parece revelar é que o objetivo é maior que esse. As roupas, a maquiagem, o cabelo, o sorriso perpétuo – de quem deve esvaziar da mente os problemas como quem aperta a tecla DEL – tudo isso serve para criar uma ilusão da empresa ideal, do atendimento perfeito, daqueles que estão sempre dispostos a nos servir.  Ao iniciar o expediente, o funcionário perde parte da sua individualidade e humanidade para se transformar numa idealização cuidadosamente planejada com o intuito de causar o melhor impacto possível, para nos fazer sentir importantes.
Paralelamente a essa idealização comportamental, há a  idealização estética, corroborando com a ideia de perfeição. É a construção de um manequim bem vestido e penteado. Não é permitido um traço de imperfeição, seja nas unhas, nas roupas ou nos cabelos escovados, no caso das mulheres; e nas barbas aparadas, no caso dos homens. Isso é facilmente notado em shoppings centers e restaurantes caros, onde as pessoas parecem mais uma vez perder parte da sua humanidade para se tornarem uma parte da decoração daquele ambiente de luxo e refinamento, independentemente do quanto isso seja enfadonho ou cansativo. Em alguns casos, a loucura é tanta que as seleções de algumas organizações chegam a ter um cunho racista na busca dos “colaboradores perfeitos”( leia-se muito mais dentro da estética do considerado perfeito do que profissionalmente falando.)
Essa é uma perspectiva que varia bastante de acordo com cada organização, o público que ela atende e sua cultura organizacional, mas a criação de padrões ilógicos é absorvida pela maioria das organizações. Seja nesses níveis mais extremos, seja proibindo ou desestimulando o uso de tatuagens visíveis, piercings, “barbas desalinhadas” e roupas fora do que é contextualizado como ideal para cada profissional, ou seja, fora do padrão estipulado.  Tudo em nome de não “ferir” as expectativas dos clientes, fornecedores e parceiros em ter aquele atendimento idealizado. O profissional deve ser o mais impessoal possível, apenas uma ferramenta organizacional, devendo agir e se mostrar assim.
Só eu estranho ver advogados, garçons e outros profissionais trabalhando de ternos escuros sob altas temperaturas em nome de uma estética que diz que isso os torna profissionais melhores? Não me convence dizer que isso é uma questão de cultura organizacional a qual devemos nos adaptar, afinal, a cultura organizacional é construída antes de tudo pelas pessoas – e para elas. A questão não é abolir os ternos e as normas de atendimento e transformar tudo num “faça o que quiser”,  mas é esperar do profissional o trabalho prestado, preservando sua individualidade e reconhecendo que a diversidade é parte da sociedade, e que o fato de não seguir esses padrões não impede ninguém de ser um “puta profissional”. O interessante é que possamos reconhecer que a estética e padrões atuais são formas de controle das pessoas em nome de uma idealização; a questão é voltar para a realidade. A questão é uma estética não impositiva que valorize a individualidade daqueles que trabalham nas organizações.
Nesses tempos, é um alento ver pessoas como o presidente do Uruguai, José Mujica, que foi à posse do seu Ministro da Economia sem usar terno, vestindo umas sandálias, e, que, durante o evento, ficou, de forma despreocupada, com a barra da calça levantada, como se usasse uma bermuda. Esse tipo de atitude  é bastante simbólica; é personificar que o seu discurso, seu trabalho e sua responsabilidade não serão afetados pelas roupas que usa, que elas poucos significam. Seu cargo e as convenções sociais não se sobrepõem a sua individualidade. Me animo cada vez que vejo um professor, algum líder de uma grande organização, palestrantes ou outros profissionais desdenhando dessa imposição de estética que é imposta à execução do seu trabalho como se lhe agregasse valor. Apesar da pressão da sociedade e de muitas organizações, isso é um sinal que ainda é possível ser natural, ser você mesmo e ser competente dentro do seu ambiente de trabalho.
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