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Muito além do binarismo: primeira parte

by / 1 Comment / 25 View / 2 de agosto de 2014

O PT é o centro da discussão política brasileira. Todo o debate é polarizado em função do PT. Vejamos: a) se sou “coxinha”, trago tal alcunha porque me posiciono contrariamente à postura governista, mas sou “manso” – ainda que raivoso em minha verborragia muitas vezes nefasta; b) se sou “vândalo”, trago tal alcunha igualmente porque me posiciono contrariamente à postura governista, mas sou “bravo” – porque minhas manifestações de caráter estético-político são tidas como atos de “terrorismo” pelo Estado.

Consequentemente, tanto os “coxinhas” quanto os “vândalos” são, para o senso comum ingênuo, “anti-PT” – enquanto que aqueles que se posicionam contra tais posturas são “PT” (embora, especialmente com relação aos “vândalos”, existam pessoas que digam que tudo não passa de tática petista – algo como uma “estratégia lulo-petista-gramsciana-bolivariana-bolchevique”, para utilizar o linguajar alucinógeno desse pessoal). Isso explicita, ademais, a pobreza da crônica política nacional: se não sou “PT”, necessariamente devo ser “anti-PT” – o que, para um percentual imenso da população, significa ser “pró-PSDB”. Vê-se, assim, que não existe mundo fora do PT – o que é alavancado pela peemedebização do partido desde o segundo mandato de Lula, o qual, assim como Dilma, arrastou asas e mais asas para os neoliberais.

Poderia parecer que estamos vivenciando uma mutação mascarada na direção do bipartidarismo americano: “os PT” seriam os Democratas (liberais) e “os anti-PT” seriam os Republicanos (conservadores). Mas não é nada disso. É muito fácil para o governista rotular quem é contrário ao seu projeto de “coxinha” ou “vândalo” – assim como é fácil para o não-governista rotular quem é contrário à sua (fraca) oposição de “petralha” ou “comunista”, como se comunistas de fato fossem comedores de criancinhas. Vive-se numa ilusão de embate político, portanto: de um lado, haveria a esquerda representada pelo PT e seu projeto libertário; de outro, haveria a direita representada pelo PSDB e seu projeto conservador.

Não contesto a existência de direita e esquerda no Brasil – longe disso. O que aponto é que tanto uma quanto outra tendência, se formos pegar PT e PSDB como paradigmas, sofre da “síndrome da vaselina” caríssima ao PMDB – daí a peemedebização da qual falei acima. Que muitas pessoas saíram da pobreza nos últimos anos e têm acesso à educação – o que, ao mesmo tempo, criou vários currais eleitorais Brasil afora –, por exemplo, não nego. Que as privatizações da Era FHC trouxeram alguns benefícios e igualmente dilapidaram o patrimônio público à preço de banana, também não nego. O que ponho entre parênteses (e nunca deixarei de por), é que a suposição de que existe um digladiar intenso entre “socialistas” e “liberais”, em se tratando de projeto político brasileiro viável, é simplesmente falsa. Todos os projetos de possível implantação passam distantes de um e outro ponto – e o que resulta disso é tão-somente a economização da existência: a suposição de que números e estatísticas (como o PIB) traduzem necessariamente o crescimento de determinada região.

Olhemos para a Copa do Mundo. Traz impulso ao turismo? Sim, obviamente. Posiciona os holofotes internacionais no Brasil? Indiscutivelmente. Deixa o povo feliz a partir de um patriotismo “grenalizado” que é compreensível pelo amor ao futebol que o brasileiro sustenta? É o que mais se vê. Mas, nesse sentido, posicionar-se contra o Mundial não significa plantar brios na negação desses pontos: significa contestar o autoritarismo estatal presenciado diante das manifestações; significa repudiar a privatização do espaço público e o favorecimento de algumas empresas na realização da Copa; significa evidenciar a inexistência de transparência na FIFA e as repercussões simbólicas do governismo petista ter simplesmente abraçado essa causa – dentre tantas outras bandeiras.

Claramente, ser “pró-Copa” ou “anti-Copa” não é o mesmo que ser “PT” ou “anti-PT” – se os “pró-Copa”, no mais das vezes, defendem febrilmente o governismo, os “anti-Copa”, em sua vertente ainda munida de neurônios, não contestam apenas o projeto governista, mas a absorção do sistema político pelo sistema econômico (assim, a economização da existência anteriormente referida em grossas linhas). O buraco, portanto, é bem mais embaixo do que julgamos e reduzir o cenário a 0 e 1, Veja e Carta Capital, “PT” e “anti-PT”, “vândalos” e “coxinhas”, “pró-Copa” e “anti-Copa”, Democratas e Republicanos; é decretar a morte da inteligência – e perseverar na baixeza incontestável do debate político brasileiro.

Como já disse em outro momento, a vida política existe para além de PT e PSDB – e é nessa vida política, nesse borbulhar de ideias dissonante em relação ao status político estabelecido, que devemos focar nossas energias intelectuais. O que devemos analisar, dessa forma, ao menos na minha visão, são as razões que levam o sistema político (idealmente preocupado com a “coisa pública”) a ser deglutido pelo sistema econômico (inegavelmente atinado à “coisa privada”) – e o painel que possibilita esse pensar é indubitavelmente o contraponto entre direitos humanos e neoliberalismo (com todos os sintomas sociais, filosóficos e políticos que possa possibilitar).

Direitos humanos e neoliberalismo: no primeiro front, aqueles que creem que a vida possui um valor intrínseco que deve ser preservado; no segundo, aqueles portam o estandarte da propriedade privada acima de tudo – “umbiguismo” e meritocracia fajuta, principalmente. É nessa encruzilhada de projetos civilizatórios que nos encontramos, muito além do binarismo “PT” e “anti-PT”.

One Comment

  1. Esse binarismo, essa criação de pólos, é uma ótima estratégia de manipulação e dominação. É muito mais fácil tratar aqueles que discordam de sua corrente política (ou de sua prática na política, se tratando em especial do PT e do PSDB), como o “lado mau”, num maniqueísmo barato, do que conseguir confrontar ponto a ponto as proposições dos discordantes. Ainda mais quando se é fisiológico (que seria essa “síndrome de vaselina” ou “peemedebização”), pois os meios para manter o poder pelo poder no Brasil são quase sempre semelhantes, e não há argumentos que consigam justificar o injustificável.

    Mas sejamos justos: esta estratégia, que muito foi usada na ditadura militar, criando estereótipos dos discordantes, tem sido muito mais usada durante o governo petista do que nos governos anteriores. E, infelizmente, tem dado certo com muita gente…

    Muito bom artigo, e espero ansiosamente pela próxima parte!

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