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“Friendzone aqui não, doidão!”

by / 0 Comments / 47 View / 11 de julho de 2014

Nesta semana, vimos bombando pela rede um suposto diálogo de Whatsapp no qual o rapaz escorraçava a menina por um motivo que pode ser sumarizado na máxima do título deste texto, evocada pelo dito cujo ao fim. Achei que devia escrever meus dois tostões sobre, e aqui estou.

Primeiramente, considero mister destrinchar o assunto para chegarmos ao seu cerne: O que diabos é essa tal friendzone? Por que tamanha comoção a respeito dela?

Lembro-me que a primeira vez que vi o termo foi no site 9gag, em idos de 2012. X e Y são melhores amigos. X se apaixona por Y, mas Y não nutre nenhum sentimento por X além da mais bonita amizade. Ponto! Contos de pessoas que declaravam seu amor por seus bests inundavam o site – Desde relatos até prints – relatando sucessos com os quais todos vibravam (Afinal, quem não gosta de uma história de amor bem-sucedida?) e falhas pelas quais lamentávamos. Inclusive, foi aí que nasceu o conceito, se é que assim posso chamar, do bravo soldado: aquela pessoa (Sim, geralmente, mas nem sempre, um rapaz) que arriscava suas chances no amor com outrem que tinha tudo pra dar certo, mas era abatido por argumentos da linha “Desculpe, mas pra mim somos apenas amigos”. Daí pra uma coisa a princípio tão inocente perder o rumo, foi questão de semanas. Não tardou até começarem os argumentos, vindos principalmente da rapazeada, claro, de “Eu te amo, te trato como uma princesa, mas você só quer saber dos babacas que te esculacham!”. Pronto, começou o vitimismo. E quem mais vestiria o manto da vilania senão a menina, né? Tão fácil. Adicione aí uma pitada de machismo (Pois a anterior foi de misoginia), e eis o pensamento (Será que posso chamar assim?) de que ser friendzoneado é coisa de otário, frutinha, ou qualquer outro adjetivo que fira a masculinidade da criatura.

Há quem diga “Friendzone não existe!”. Mas eu discordo. Friendzone existe SIM! Quantas vezes já não vimos um sentimento por aquela pessoa mais chegada surgir e não ser correspondido com o argumento de “Somos só amigos”? Não adianta fazer o Morgan Freeman e dizer que a solução é ignorar: é algo apenas natural, algo entre livre arbítrio e “Não rolou a química”. Acontece.

O que não pode é como muitos já devem estar cansados de ler, pensar que a menina é tipo uma máquina de refrigerante onde você deposita carinho e atenção, e é só apertar o botãozinho que vem um relacionamento fresquinho. Contra fatos, não há argumentos: se você pensa assim, é um completo babaca. Agora, considerando que você NÃO pensa assim, reflitamos: é chato se declarar, seja pra pessoa amiga, inimiga ou o escambau, e receber uma negativa? É chato pra cacete. É duplamente chato desenvolver um sentimento por uma pessoa com quem você tem toda uma afinidade, conhece bem, compartilha segredos e tudo mais e descobrir da pior forma que esse sentimento foi unilateral? Sem dúvidas. Mas se você tem um mínimo de maturidade, de bom senso, de dignidade, vai fazer o que? Entender e aceitar. Bola pra frente, a amizade continua. Não tem porque dar fim só por causa de um toco. Infelizmente, entretanto, as três qualidades que mencionei, são coisas que deviam ser alicerces de qualquer ser humano, parecem andar em severa escassez. E uma das mais gritantes manifestações dessa escassez é esse sofrível episódio do whatsapp.

Consideremos que talvez, e apenas talvez, a moça vinha de fato andando assaz presunçosa em decorrência das turbinadas às quais andou se sujeitando. Justifica a reação agressiva do rapaz? Jamais. Fato que o homem é, fisiologicamente, um ser reprodutivo. Ele vai procurar acasalar com quantas mulheres tiver chance porque a natureza assim determinou. Veja bem, não estou endossando ou justificando o comportamento. Nossos hormônios assim nos comandam… 7o fazem com qualquer cachorro, suricate, monstro de gila. Mas de que tanto nos gabamos por nos separar dos outros animais, mesmo? Ah, sim, sermos animais racionais. Mas pra agravar a situação, desde pequenos somos instruídos por nossos pais a vermos uma menina passando na rua e mexer com ela. Assoviar. Lançar uma gracinha. Porque é a coisa certa. Coisa de macho. Quer dizer, estamos em 2014. E o que fazemos com essa racionalidade? Utilizamos a favor de nossa irracionalidade porque sim: a despeito da quantidade de mulheres ser de 5 milhões a mais que de homens, segundo estudo de 2013 do IBGE, os homens tendem a agir como se nunca tivessem visto uma mulher na vida; falta pouco urrarem e mijarem no poste. Isto posto, não seria surpresa alguma se, de fato, após a tal cirurgia, uma enxurrada de homens tenha empregado incessantes esforços em, como se diz em inglês, “chegar dentro das calças” da menina. Se ela ficou presunçosa com isso, a culpa foi dos próprios homens e sua viciosidade. No entanto, do jeito que ela falou com ele, acho – só acho – que não foi o caso. Ela procurou ser o mais gentil e indolor possível. Precisava mesmo ser tão grosso? Não, não precisava. Definitivamente. O que me parece é que o cara fez isso pra aparecer, sinceramente. Aliás, se essa situação não for montada, quero ser mico de circo. E querem saber de uma coincidência macabra? A primeira vez que vi esse post foi numa página que dizia algo sobre “meter a real”. Aos que porventura não se lembrem, esse termo é bastante comum entre extremistas da turma de Silvio Koerich e o Maníaco de Realengo. Tenho horror a esse termo e ao adjetivo “paspalho” facilmente visto acompanhando-o.

Acho verdadeiramente triste que um conceito que nasceu em pequenas epopéias de gente como a gente tenha sido deturpado para um primata “FRIENDZONE AQUI NÃO, DOIDÃO!”. Meu conselho e desejo a esse respeito é um: não celebremos a estupidez humana.

Mais amor, por favor. E menos, bem menos, imaturidade e vitimismo. Todos temos direito à escolha – mesmo às piores possíveis. Quando soubermos respeitar isso, a friendzone ainda existirá, mas será bem menos dolorosa e abominável, asseguro.

Helio Neto ainda se questiona como se formou em Análise de Sistemas, um curso de exatas, quando suas verdadeiras vocações sempre estiveram na arte e nas ciências humanas. Adora questionar e subverter padrões pré-estabelecidos, principalmente os que considera sem sentido.

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