O Divino Mercado – as pulsões humanas no mundo neoliberal: como os sete pecados capitais se elevaram à categoria de virtude

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Albert Drummond Lopes*

“O homem é mau”, assim falavam os outros sábios para consolo meu.

O maior mal é necessário para o maior bem do Super-homem.

Padecer pelos pecados dos homens podia ser bom para o tal pregador dos humildes. Eu, porém, rejubilo com o grande pecado como minha maior consolação. (NIETZSCHE, 2002). 

Em a Idolatria do Mercado, Hugo Assman e Franz J. Hinkelammert discorrem sobre a moral na contemporaneidade, na qual o individualismo ético só reconhece os valores do mercado para sua relação com o mundo exterior, reformulando conceitos morais tradicionais e adaptando-os à lógica do mercado.

Com a chegada do Capitalismo, a Igreja viu-se obrigada a adaptar-se ao novo mundo, por vezes necessitando adequar suas doutrinas morais à nova “lógica” social. Entre essas doutrinas se encontram os pecados capitais, os sete principais vícios humanos, responsáveis por encabeçar todo o resto dos males existentes em nós. Se outrora Aristóteles e os padres do deserto acreditavam que deveríamos controlar, se não extinguir, nossas paixões, hoje, na contemporaneidade, somos estimulados a libertá-las. Todos os pecados capitais, sem exceção, são tidos como virtudes nesta sociedade neoliberal atual corroída pelo afã consumista: estimulamos a inveja como fórmula substancial para o sucesso; a avareza se tornou um valor dos bem-aventurados dentro da sociedade consumista; a ira é fomentada pelos fundamentalistas políticos e religiosos; compramos a gula que nos é enfiada goela abaixo; a castidade se tornou um pecado grave enquanto a luxúria se limpa da lama em que sujou durante toda a Modernidade; a ditadura do aparentar ser, do reconhecimento imediato ou do deixar-se ver inflama o nosso gosto pela vaidade e, por fim, a preguiça se torna a utopia do capitalismo, no qual se almeja um ócio eterno.

Trabalhando com conceitos de moral, neoliberalismo, pulsões e mercado, pretendo compreender melhor a construção dos valores morais dentro da doutrina dos sete pecados e sua inversão na sociedade contemporânea.

Palavras Chave: Sete pecados capitais. Neoliberalismo. Moral católica. Inversão de valores. Pós-Modernidade.

1. Construindo a doutrina dos pecados capitais. 

A amartia[1] é uma expressão utilizada na Poética de Aristóteles, que faz alusão direta às tragédias gregas e seus heróis. Em sua essência, a amartia é a ignorância combinada com a ausência criminosa, dispondo de uma parte do indivíduo: uma falha de caráter, que o torna responsável por sua queda. Nas primeiras traduções latinas da Poética, o conceito mais abordado de amartia era sua tradução direta a pecado (do latim peccatum), transgressão (scelus ou praevaricatio) e ofensa (flagitium), o que nos dá uma ideia do peso moral atribuído ao termo. Essa interpretação perdurou por grande parte da Idade Média, convivendo inclusive com outras leituras, tais como falha no caráter e caminhada para o vício.

No período medieval, a palavra vício, do latim (vicium), passa a ser utilizada para designar uma consequência da amartia. Na Antiguidade Clássica, porém, é que os vícios humanos já começam a ser abordados como um mal social. Em 300 a.C., Aristóteles aborda em Ética e Nicômaco (2001) as constituintes da moral, do bem e da virtude, que estão diretamente relacionadas às paixões e aos prazeres, contrapondo-se, é claro, aos vícios, que, por sua vez, poderiam ser controlados e até evitados. No entanto, nossas disposições morais nasceriam de atividades semelhantes às virtudes e às paixões. As paixões tenderiam ao excesso ou à deficiência, já as virtudes levariam à moderação, que está entre dois extremos, entre dois termos opostos. E ambos no mesmo gênero. Aristóteles assim define paixão:

Por paixões quero significar os apetites, a cólera, o medo, a audácia, a inveja [...] o ódio, o desejo, a emulação e, de um modo geral, os sentimentos que são acompanhados de prazer ou sofrimento [...] Ora, nem as virtudes nem as deficiências morais são paixões, pois não somos chamados bons ou maus por causa de nossas paixões, e sim por causa de nossas virtudes ou vícios [...] Somos louvados ou censurados por nossas virtudes ou vícios

ARISTÓTELES, 2001, p. 46). 

Assim, Aristóteles compreende que nossas paixões são como os instintos: podemos trabalhá-los, controlá-los, até evitá-los, mas não podemos extingui-los. Os gregos exemplificaram parte do “mal” humano, porém, foi com Evágrio Pôntico[2] que a “doutrina” dos vícios começou a ser analisada dentro de uma perspectiva cristã. Em dois dos seus principais escritos (A Propósito do Discernimento das Paixões e dos Pensamentos e Sobre os oito vícios capitais), baseando-se em sua vivência e em suas observações, Pôntico traça as principais doenças espirituais que afligiam os monges, oito males do corpo e da alma. A preocupação com a “autoflagelação” fez de Pôntico o responsável pelo início do que viria a ser a Teologia Moral Católica, uma vez que ele foi o primeiro a organizar de forma sistemática os males humanos, oferecendo um aprofundamento dos estudos morais, da alma e do corpo. Em “Sobre os oito vícios capitais” (em latim, De octo vicium capitalia), Pôntico (2012) é enfático, classificando e analisando cada um dos males do corpo e da alma; ele os lista e os ordena: gula, luxúria, avareza, ira, tristeza, aborrecimento, vanglória e soberba. No século VI, Cassiano, discípulo de Pôntico, levou sua relação dos males humanos ao Ocidente e, pelas mãos de Gregório Magno[3], a lista de vícios se converteu na lista dos sete pecados capitais, tendo como base parte das concepções de pecado de Santo Agostinho. Magno se tornou então o maior estudioso, dentro do período patrístico, a trabalhar com a ideia de vícios e pecados, reescrevendo-os e adaptando-os à ideia da doutrina cristã ocidental[4]. A lista dos pecados foi ainda modificada e encontrou sua solidificação nas mãos de São Tomás de Aquino, responsável por redefini-la e padronizá-la. Ao tratar dos vícios, organizando as experiências antropológicas de Cassiano e Gregório Magno, Aquino cria uma doutrina concisa e reajustada acerca dos pecados capitais, explorando em seus escritos todos os males advindos deles. Assim, toda uma milenar experiência sobre o homem traduz-se em sete[5] pecados capitais, que arrastam atrás de si “filhas”, “exércitos”, totalizando cerca de cinquenta outros pecados.

Entre 1545 e 1563, durante o Concílio de Trento, a lista dos pecados se tornou fixa nos preceitos doutrinadores da Igreja, oficializando de vez todo o trabalho acerca da alma humana e seus defeitos. O discurso sobre os pecados, ao mesmo tempo em que denuncia o mal e procura inculcar as atitudes legítimas da ética católica é um instrumento valioso pelo qual a Igreja difunde seus valores no seio da sociedade e aumenta seu controle sobre ela.

Para Baschet, a Igreja empreende dessa maneira uma exploração exaustiva e minuciosa dos sentimentos e das paixões, que se inscreve em uma arqueologia da psicologia ocidental; [...] também faz ver, ao mesmo tempo, o mal e o remédio que pode curá-lo [...] (BASCHET, 2000, p. 380). Por meio da conceituação dos pecados, a Igreja reivindica para si também o monopólio da missão que lhe permite absolvê-los. Assim, nasce a força pastoral dos conceitos do pecado e do perdão, cujo desenvolvimento, tanto na Idade Média quanto hoje, é considerável. Tais conceitos visam a potencializar a culpabilidade dos fiéis e, sobretudo, à valorização dos meios de salvação oferecidos pelos clérigos (BASCHET, 2000, p. 380). Seu principal propósito era e é controlar, catequizando os principais pilares sociais e seu reflexo dentro da sociedade se dá de forma eficaz. Baschet (2000) discorre ainda sobre o medo imposto com o uso dos pecados e sobre como existiu uma hierarquia dentro da lista dos pecados, hierarquia mutável, uma vez que consegue acompanhar as mudanças sociais.

A Igreja utilizou a lista dos pecados para comedir certos hábitos e (ou) costumes sociais, envolvendo desde o próprio clero até as classes mais baixas. Por um longo período (séculos XII-XIX), a lista foi didaticamente divulgada pelos padres, em sermões e diversas iconografias – vitrais, pinturas, murais e escritos literários[6] – ilustrando como seriam as punições aguardadas no Inferno e no Purgatório.

O pecado da vaidade encabeça a lista: é o pecado dos dominantes, clérigos ou aristocratas que, uma vez glorificados por sua posição, tornam-se vítimas de um exacerbado desejo de elevação, infringindo por vezes a obediência e a submissão que devem manifestar perante Deus. A inveja torna-se o pecado da hierarquia social, em que cada qual observa de forma maliciosa a ascensão de seu semelhante. É o pecado das classes inferiores, que repugnam sua posição de dominados e lançam um olhar maldoso em direção ao topo da sociedade (BASCHET, 2000). A ira solidifica-se como o pecado dos heréticos, uma vez que tais transgressores intencionam provocar o caos, argumentando sobre o não argumentável e estimulando a violência em suas mais variadas formas. A avareza (ou usura) desordena a máquina social. No século XII, com o crescimento das cidades e do comércio surgem novos desafios e novos problemas sociais que a Igreja precisa combater; um deles é o crescimento da população herética e a necessidade de incluí-la novamente nas estruturas do cristianismo. Entre esses pecadores se encontra a figura do mercador, e a avareza como seu principal pecado. Se no início a Igreja favorece sua atividade, em seguida ela lhe faz pesadas acusações sobre a legitimidade de seu ofício (LE GOFF, 1991). A gula, pecado da nobreza, desperta as compulsões do corpo, atentando principalmente para a possibilidade de despertar outros pecados, como a preguiça e a luxúria. Os excessos de bebida e as grandes festas das cortes passaram a ser veemente condenados, estipulando novos bons hábitos no comer e no beber. A luxúria talvez tenha sido o pecado mais condenável, uma vez que estava presente em todas as classes sociais. A mulher, condutora principal das tentações e seduções corporais, foi o foco principal de condenação pelo pecado da luxúria.

A condenação deste pecado, porém, também respingou sobre a conduta masculina, especificamente dos sacerdotes, tendo seu maior destaque a partir do século XII, quando o celibato é definido como uma obrigação estrita dos clérigos, e a nova doutrina do casamento impõe aos laicos regras mais coercitivas (BASCHET, 2000). A acídia[7], que de início era um pecado exclusivo dos monastérios, trazendo as marcas de sua origem (Pôntico, Prudêncio, Cassiano e Gregório), passa a se referir ao desalento e à melancolia que tenta na direção do desvio de Deus. A partir do século XIII, expande-se o conceito de acídia e dá-se a mudança de sua denominação para preguiça, associada principalmente aos laicos que não cumprem seu ofício diário de trabalho.

2. A inversão dos valores morais no Neoliberalismo. 

Antes de entendermos como se deu a inversão dos valores morais é imprescindível compreender a inserção das principais ideologias responsáveis por modificar a mentalidade do homem moderno.

Ao longo do tempo, a Igreja Católica acumula uma vasta gama de conhecimentos, opiniões e atuações no que diz respeito aos desvios morais: os conceitos de pecado e de pecar tiveram extensa evolução durante a história da Igreja que, com vistas a proteger suas próprias posições, reordena e modifica a gravidade e a ordem destes segundo o contexto histórico. A “versatilidade” da Igreja em adaptar-se fez com que a própria instituição permanecesse vigente, porém grande parte de sua doutrina se alterou durante a história. Durante toda a Idade Moderna, a moral católica oscilou, seja pendendo para uma afirmação ou consolidação de seus preceitos, seja anulando-se, questionada por novas linhas de pensamentos que surgiam, entre elas o Liberalismo[8].

Em meados do século XX, “novas” correntes ideológicas surgem: a mais forte e a “principal” delas foi o pós-modernismo[9], que assumiu o direcionamento a uma nova linha de pensamento, se responsabilizando pela “ressignificação” de toda uma milenar acepção desenvolvida pela Igreja durante a história. O pós-modernismo desregulou uma linearidade dentro da moral católica já construída e validada, invertendo seus valores[10]. “As doutrinas éticas pressupunham certa homogeneidade local, em que podiam reescrever exigências institucionais como normas interpessoais e com isso reprimir realidades políticas nas “categorias arcaicas do bem e do mal” [...]” (JAMESON apud ANDERSON, 1999, p. 77).

O pós-modernismo trouxe a possibilidade do questionamento e da autonomia, desconstruindo doutrinas enraizadas, desqualificando-as e oferecendo vastas opções, como diz Jencks:

É uma era em que nenhuma ortodoxia pode ser adotada sem constrangimento e ironia, porque todas as tradições aparentemente têm alguma validade. Esse fato é em parte conseqüência do que se denomina de explosão das informações, o advento do conhecimento organizado, das comunicações mundiais, da cibernética.

(JENCKS apud KUMAR, 2006, p. 142). 

Se o pós-modernismo projetava o individuo cada vez mais dentro da lógica do mercado, a retomada do liberalismo, o neoliberalismo[11], o inseriu de vez.  Essa “nova” ideologia trouxe consigo um desejo de liberdade, onde o homem basta-se a si mesmo quando inserido no mercado e, neste particular, a economia não segue leis, mas tendências. (GALVÃO, 1997).

Na Idade Média, o homem desprezava o corpo e cultuava a alma. No período conhecido como a “Pastoral do Medo” (DELUMEAU, 2006), durante a Idade Moderna, com o Renascimento e o Iluminismo, o homem se configurou em dois processos principais: o de desconstrução (do ser, antes definido pela Igreja) e o de racionalização. A partir da pós-modernidade e consequentemente do neoliberalismo, o homem se encontra no cerne do sistema de mercado. Para Assmann (1989, p. 232), o neoliberalismo fez com que tudo que era produzido pelo homem fosse reduzido à condição de mercadoria; a natureza e todos os recursos naturais e o próprio ser humano, parte dos mecanismos mercadológicos, foram reduzidos a mercadorias.

O sistema de mercado só conseguiu impor-se quando conseguiu impor uma determinada visão do homem, como marionete dirigida pelo interesse próprio na competitividade do mercado, dispensando de angustiar-se com esforços de repensar, sempre de novo, as possibilidades da liberdade própria e alheia, numa conjugação social de ambas. A liberdade ficou dogmaticamente definida: as relações contratuais do mercado são a única liberdade possível. [...] Quem parafraseasse, na primeira etapa, o salmo 23(22), aplicando-o (“O Mercado é meu pastor, nada me pode faltar”), hoje poderia rezá-lo com mais devoção ainda, se estiver de acordo com a ideologia neoliberal. (ASSMANN, 1989, p. 234, 253).

O neoliberalismo definiu novos contornos sobre a relação do homem com a religião: se por um lado ele a descarta, apoiando-se nos mecanismos disponíveis do mercado, por outro ele se agarra de forma fundamentalista e enfática aos diversos “novos” deuses[12]. Este homem não precisa mais de um direcionamento sobre seu agir, sua conduta e sua ética já que o próprio mercado o oferece.

Os conceitos de ética e conduta estão diretamente ligados a outros dois conceitos – moral e moralidade – que de certo foram desenvolvidos pela Igreja durante seu percurso na história. O principal interesse da Igreja era direcionar o homem a uma conduta que estivesse de acordo com as doutrinas católicas e, para isso, ela desenvolveu um longo processo de caracterização ou definição das “condições humanas”. Seguindo a linearidade do desenvolvimento dessas “condições humanas e morais”, passamos por Aristóteles que definiu os conceitos de vícios e virtudes. Segundo ele, nascemos com virtudes; ao cometermos a amartia, porém, desviamos nossa essência virtuosa e caímos no vício. Na Idade Média, a Igreja adaptou e moderou esses conceitos a “condições de pecados e virtudes”. A Igreja define então nossos vícios e classifica-os como pecados, com os quais nascemos e, por meio de más influências, podemos cometê-los ou permanecer com eles. Apenas no início do século XX é que essa concepção iria mudar: em 1915, Freud resgata a ideia de Aristóteles sobre as paixões humanas (instintivas e pulsionais) e, trabalhando com o conceito de pulsões, desconstrói e desmistifica as ideias de vício e de pecado (ou pecado original) já consolidadas pela Igreja. Para Freud (apud Blanco, 2013), pulsão (do alemão Trieb que significa broto) é uma forma germinativa do querer, que é estimulada pelo ambiente em que vivemos. Todos temos essa força natural e tanto os vícios de Aristóteles quanto os pecados da Igreja nada mais são que pulsões, instintos naturais do ser humano, que os comete quando a sociedade os estimula. As teorias apresentadas têm um ponto em comum: vícios, pecados e pulsões podem ser contidos[13].

A construção do homem neoliberal se dá principalmente por meio da renúncia ao instinto: “os prazeres da vida civilizada vêm num pacote fechado com os sofrimentos, a satisfação com o mal-estar, a submissão com a rebelião (FREUD apud BAUMAN, 1998, p. 8). As compulsões do homem neoliberal, suas regulações e supressões são a marca registrada do pós-modernismo resultando nos excessos, antes trabalhados pelos gregos, condenados pela Igreja e, agora, validados pela lógica do mercado. O mercado oferece possibilidades de satisfazer os mal-estares dos homens, as pulsões de Freud elucidam a questão do medo[14] (já que ceder às “paixões” é parte essencial de quem somos) e o mercado nos estimula a isso. O individualismo, tão cultuado pelo pós-modernismo, fez com que aprendêssemos a “honrar” os nossos deveres morais individuais.

Enquanto a Igreja Católica e outras religiões tentam a todo custo um “retorno” de uma moral altruísta, o mercado “descentra[15]” o individuo estabelecendo uma “‘moral sem obrigações nem sanções’ segundo as aspirações da massa que se mostra cada vez mais inclinada a um individualismo hedonista democrático” (LIPOVETSKY, Gilles, 2005, p. 105).

3. As sete virtudes capitais. 

Jean Delumeau (2003) escreveu sobre a culpabilização do pecado no Ocidente, e como o homem medieval se sentia (ou o faziam sentir-se) quando cometia pecado: “Na história europeia, a mentalidade obsessiva foi acompanhada de uma “culpabilização” maciça, de uma promoção sem precedentes da interiorização e da consciência moral. Em escala coletiva, nasceu no século XIV uma “doença do escrúpulo” que se amplificou” (DELUMEAU, 2003, p.9). Na sociedade neoliberal, o conceito de culpa passa a ser considerado obsoleto: para Menninger (apud GUINNES, 2006, p. 18), dentro da teologia pós-modernista, a noção de “mal” deixou de ser pecado para ser crime (definido legalmente), e se tornar doença (definida em categorias psicológicas). Em outros termos, a moral “profana” suplantou as leis morais de salvação eterna, apontando para uma nova perspectiva em que um grande número de sólidas prescrições morais ainda continua envolvendo uma incessante busca pelo prazer.[16]

A moral do Ocidente neoliberal remete aos conceitos de “permissivo” e “transgressivo” [17]. No neoliberalismo, a noção de pecado se torna minimizada: contrastando com a tradição milenar dos pecados e virtudes, a cultura pós-modernista é permissiva, induzindo e estimulando que o indivíduo faça o que bem quiser e como quiser; a única “punição” a ser temida é a lei. Deus se tornou meramente mais uma das partes do mercado. Nessa sociedade transgressiva, têm-se licença para empanturrar-se de comida, dormir com quem desejar, angariar lucros (mesmo que isso ultrapasse uma “boa ética” social), atacar quando se sentir acuado, competir para suprir frustrações, utilizar os mais diversos recursos para adquirir uma aparência falsa, ou simplesmente se acomodar. Pode-se até cruzar qualquer limite legal ou ético que não seja suscetível de ser descoberto.

Os pecados capitais fazem-se presentes na sociedade neoliberal e permissiva, porém trocaram por virtuoso seu caráter negativo, e tornaram-se, por vezes, dentro da lógica do mercado, condutas convenientes e estimulantes.

3.1. A vaidade e a beleza de consumo

De todos os pecados capitais, a vaidade ou soberba[18] sempre esteve no topo da lista como o principal mal humano, fazendo referência direta ao pecado de Lúcifer contra Deus. Freud (2010) aborda a essência do pecado “contemporâneo” da vaidade, quando trabalha com a ideia de narcisismo, em que o homem se centraliza de forma a entender sua “superioridade” e elevar-se à categoria única de Eu.

O neoliberalismo cultua a individualidade: assim, mais do que individualista, o mercado promove a elevação dos egos e do egoísmo, recrutando cada vez mais conjuntos massificados de pessoas. A mídia pode ser considerada a maior responsável pelas exigências comportamentais, incluindo a estética corporal; passamos pela era de ouro do cinema hollywoodiano, com ícones “exemplares[19]” de beleza como Marilyn Monroe, Marlene Dietrich ou Greta Garbo, renovando o mundo “imaginário” e impondo um novo modelo de aparências, o das “estrelas”, forçando a adesão ao mito: o de seres excepcionais vivendo entre os homens, o de seres “feitos para serem amados”. (VIGARELLO, 2006). O conceito de beleza do início do século XX é trazido para o pós-modernismo e, a partir daí, uma “ditadura do corpo” se instaura, incitando uma falsa liberdade individual na qual todos fazem parte de um mesmo fundamento, tornando o individuo “hipertrofiado[20]”, validado, é claro, pela coletividade:

[...] o advento de uma sociedade de serviços, a propagação do consumo, a dependência do individuo a “círculos” sempre mais diferentes da vida social, estimulando sua aparente autonomia, sua “deslocalização”, enquanto se aceleram as mobilidades e os mercados. Uma intensa personalização do parecer se impôs como fenômeno de massa e também em princípio imediato de valorização

(VIGARELLO, 2006, p. 182).

 A sociedade neoliberal é a sociedade do “ser” e do “aparentar ser”. A moral, que tanto condenava a arrogância, agora cede aos seus encantos superficiais e a vaidade se torna uma virtude.  Dentro da lógica do mercado, exigente de um comportamento cada vez mais espelhado em pré-definições de ética e beleza, sair dessa linearidade é não estar apto a conviver com uma sociedade cada vez mais globalizada e observada.

3.2. A avareza, a grande rainha do mercado 

No início da categorização dos vícios humanos, a avareza se restringia ao acúmulo, ao guardar para si; tornou-se, posteriormente, sinônimo de egoísmo. Com a chegada do capitalismo, o pecado da avareza encontrou um campo fértil para de fato desenvolver-se e assumir sua identidade. Agora, pecar pela avareza é valorizar de forma imoral os bens materiais e se submeter a qualquer tipo de situação para lucrar.

O Fordismo[21], creio, foi o ponto de partida para elevar esse pecado à categoria de virtude. A absorção da ideia mercadológica fez do indivíduo neoliberal parte do mercado, absorvendo o dinheiro à identidade humana. Hugo Assman (1989) entende a relação entre mercado e indivíduo como uma analogia “perfeita”, em que uma ideologia de números[22] apela por mais mercado e se transforma numa promessa vazia da solução de alguns problemas, como a pobreza, o desemprego e a destruição do meio ambiente. “Aos problemas concretos que aparecem é dada uma só resposta que se repete monotonamente: mais mercado” (ASSMAN, 1989, p. 265).

As relações de poder estimulam e conduzem a sociedade: se outrora, no medievo, os mercadores eram o foco das condenações por avareza, no pós-modernismo todos se tornam mercadores e focos, mantendo relações de compra e venda, lucro e poupança, produção e consumo, só que agora livres de condenações. Ser avarento é ser social, é ser oblíquo, é ser capaz de viver de forma saudável num sistema cada vez mais capitalista e caótico. Deus se tornou o mercado e Wall Street o seu templo:

A avareza tem uma aterrorizante capacidade de se transformar em uma falsa virtude diante de uma demanda e, mais sugerido que afirmado, a compreensão que a avareza é realmente o pecado da apostasia, de desejar uma vida sujeita ao controle humano no lugar de uma vida de vulnerável confiança no invisível (TICKLE, 2005, p. 49).

3.3. A inveja e a garantia de sucesso

Durante toda a Idade Moderna, a inveja serviu para definir e organizar a hierarquia social: servos, burgueses, nobres e clero. Com a chegada do capitalismo, essa ordem se tornou questionável e quebrável, podendo então qualquer pessoa ser o que quisesse e estar na posição que quisesse. O Capitalismo possibilita a escalada dentro da hierarquia social.

Epstein (2004) trabalha com o marxismo para explicar o papel da inveja na sociedade neoliberal. Para ele, a teoria marxista[23] apoia-se na inveja, uma vez que se a revolução do proletariado, como Marx prometeu, tivesse ocorrido, poria fim de vez a toda e qualquer condição que originasse a inveja, Epstein diz:

A grande luta de classes diz respeito a nada menos do que as vantagens invejáveis das classes superiores em relação às inferiores – vantagens que, mesmo às custas de uma revolução sangrenta, precisam ser eliminadas. Por esta razão, o marxismo tem sido até descrito como um culto à violência, sendo a inveja seu permanente estimulante, combustível e motivador. (EPSTEIN, 2004, p. 41). 

Por essa perspectiva, pode-se entender melhor a dinâmica da inveja dentro do pós-modernismo. A inveja pressupõe existirem condições superiores às do invejoso, e pela lógica do mercado, as destoantes comparações acabam por estimular a competitividade[24]. No contexto pós-moderno, portanto, a inveja individual deixa de ser condenada e o mundo, de uma forma metafísica, passa ser o grande pecador, que age injustamente oferecendo prosperidade àqueles que consideramos indignos dessas “bem aventuranças”. Além disso, não é o invejado que comete uma ação imoral: o seu triunfo é mais uma expressão de [...] uma imoralidade do mundo. (ALBERONI, 1996, p. 73).

A distorção dos valores morais se dá quando precisamos do estímulo invejoso para buscar o sucesso: lidamos, então, com uma pressão social de “ter que, a todo custo, vencer na vida”, ou dentro da lógica do mercado, “ser bem sucedidos financeiramente”.

3.4. A ira, um pecado justificável 

O vício da ira talvez seja o mais contraditório, pois sentir raiva e ódio sempre foi justificável como um instinto, natural[25] a quem o detém. A Igreja considerava pecado somente a raiva dirigida contra Deus: a Inquisição, por exemplo, matou e queimou milhares de pessoas, de forma intolerante, porém legitimada numa visão fundamentalista de bem. Questionar a ação da Igreja era considerado heresia, um pecado de ódio contra os “bons”, uma transgressão, assim como a loucura.

Na sociedade neoliberal, a ira pode ser um estímulo a favor da justiça e do bem comum, contra quem ameaça a paz e o bem-estar. No entanto, cabe compreender que bem é esse e a quem a justiça que valida atos de violência se refere. “No ocidente religioso contemporâneo, a ira não é considerada um problema assim tão sério. É como se fosse um fenômeno natural, como uma tempestade ou um relâmpago súbito, e talvez seja até bastante respeitada como uma prerrogativa masculina a um privilégio da autoridade.” (THURMAN, 2005, p. 34).

No pós-modernismo, a ira se delimita através de leis sobre o que é ou não permitido, uma ética que pode favorecer quem se mantém no topo da cadeia mercadológica. Nessa sociedade secularizada, os indivíduos perdem seus medos dos “infernos” futuros mediante uma doutrina de aniquilamento da morte, sentindo-se livres para desafiar a autoridade do Estado e do mercado[26].

A intolerância está intrínseca no homem neoliberal. O mercado individualiza esse homem e sua autonomia subjetiva se manifesta, na maioria dos casos pela desvalorização das autoridades morais externas frente àquilo que brota do próprio individuo, tornando a ira uma coisa boa, quando considerada justa, é claro.

3.5. A luxúria e a dicotomia entre o amor e o sexo 

Os domínios e a autonomia do corpo sempre foram uma das principais fontes de condenação moral da Igreja. Durante a Idade Moderna, as distorções de valores se deram com os pensamentos “progressistas[27]”, desconstruindo de forma racional as amarras e tensões sobre o corpo.[28] No pós-modernismo, com a Revolução Sexual, toda conduta referente à corporalidade foi revista, as relações ficaram “possíveis” e a moral católica declarou guerra às “novas” definições. O neoliberalismo tentou limpar a lama em que a luxúria chafurdou por toda a história, enquanto novas formas de extremismo e intolerância religiosa propunham sua extinção de fato.

Não se pode dizer que a luxúria saiu vitoriosa no embate com a religião, mas pode-se dizer que ela ganhou maior espaço[29]. A “permissividade” das relações sexuais facilitou ainda mais a limpeza de sua reputação; no mundo neoliberal o individuo consegue exercer sua sexualidade (mesmo que alguns segmentos a condenem). A grande questão restante é a relação dicotômica entre amor e sexo: a religião adota a missão de dar continuidade à importante virtude do amor[30], enquanto a sociedade neoliberal cultiva a liberdade sexual, diferenciando precisamente a relação de um com o outro. Dufour (2008) tenta clarear essa dicotomia: existem duas relações de amor: “o amor pelo outro” (o amor sexual, a luxúria) e “o amor verdadeiro”, o da moral tradicional. No amor pelo outro o indivíduo pode escolher quem ele quer, inclusive pode pagar por isso (amor comprado[31]). Já no “amor verdadeiro” o indivíduo não escolhe o outro, ele é o que te cabe (DUFOUR, 2008, p. 71). De certa forma, as duas formas de amor são afetadas pelas práticas pós-modernistas, possibilitando a não necessidade de reconhecer a existência do outro. A relação de dicotomia entre moralidade e “liberdade” (ou permissividade) torna a luxúria uma virtude por vezes exaltada, porém não menos condenada[32].

3.6. A gula e sua controvérsia 

Já que a gula diz respeito à falta “ética” no comer e no beber, questiona-se: – como um problema de “boas maneiras” poderia se tornar um dos sete pecados capitais? A resposta é que, na Idade Média, os excessos advindos da procura dos prazeres do paladar foram enquadrados na grave falha de ultrapassar-se conscientemente a medida (amartia) no comer e no beber:

“O pecado da gula “era” um pecado de gradação, mas o grau que parecia importar mais não era tanto o consumo excessivo, mas o apetite, o desejo e a atenção excessivos: a fixação na comida, no prazer derivado do paladar; a dor autoinflingida da fome; e principalmente, as maneiras pelas quais todas essas fixações relacionadas desviavam a atenção das necessidades mais importantes da alma e do espírito

(PROSE, 2004, p. 55).

O pós-modernismo traz um pouco da culpabilização medieval ao pecado da gula: por um lado temos a cobrança da vaidade, do corpo ideal e da criminalização do sujeito que traz em seu corpo os resquícios de sua fraqueza palatativa; por outro, temos um hábito estimulado pela luxúria, a junção direta do sexo com a comida, mais uma vez associando[33], por meio da publicidade, os prazeres sexuais aos prazeres do paladar (QUELLIER, 2011).

A gula continua sendo um pecado de classe e o consumismo, suas consequências. O homem neoliberal seculariza e medicaliza o vício do paladar, o que facilita ainda mais sua absorção pela sociedade: é um mal remediável. A gula elevou-se além dos prazeres do bem comer e beber; a necessidade de consumo do homem pós-moderno expandiu-se, e os padrões de felicidade são medidos pelos níveis de consumo: quem consome mais é mais feliz (HERKENHOFF, 2007). A mídia e a publicidade estimulam essa sociedade consumista: há comidas cada vez mais elaboradas, a bebida se relaciona ao ensejo para a expressão, corporal e sexual, e os fast foods oferecem uma facilidade para o homem (em constante movimento) se satisfazer de forma rápida e saborosa.

A gula se contradiz. Ela é condenada quando é expressa pela gordura, a marca que provoca no corpo. Pode ser estimulada, porém, quando a cometemos de forma discreta, em prol do convívio, do sexo ou do simples prazer gustativo.

3.7. A preguiça e o paradoxo de mercado 

No período medieval, a acídia esteve associada diretamente aos monges, que podiam ser condenados por sua “melancolia” no viver[34], que ocasionava um distanciamento para com Deus. Com o desenvolvimento econômico e, principalmente, com a chegada do capitalismo a melancolia, a frustração e o descontentamento foram adotados como justificativa para o “não cumprimento com as tarefas diárias”: então, o pecado da acídia, agora chamado de preguiça, sai dos monastérios e atinge toda a sociedade.

Seria ela, de todos os sete capitais o único pecado condenável do pós-modernismo? Essa questão tem dois lados: o primeiro aborda a preguiça como um pecado gravíssimo, uma vez que neutraliza no indivíduo neoliberal o impulso de produzir, estagnando, assim, toda a mecânica do mercado; por outro lado, esse mesmo indivíduo acorrentado a um cotidiano de produção exige maiores facilidades para o desenvolvimento de suas atividades (WASSERSTEIN, 2005). O mercado, então, cobra uma produção e em troca oferece (por meio da tecnologia) facilidades. O individuo neoliberal, preso a um paradoxo contínuo, trabalha para comprar seu conforto.

A preguiça aos poucos foi se tornando um vício permitido, validado pelo mercado: ter “direito” a não fazer absolutamente nada, a permanecer no ócio (mesmo que seja criativo), torna-se uma virtude da elite e uma utopia da grande massa que trabalha continuamente para um dia chegar à tão almejada ociosidade. Essa nova virtude oferece tempo, tempo que vai à contramão de uma sociedade que não pode parar. Trabalha-se muito para ter-se conforto, trabalha-se exageradamente para ter-se direito a usufruir a preguiça, o não trabalho.

4. Considerações finais. 

Junto com o neoliberalismo veio certa descrença sobre os valores morais tradicionais. O pós-modernismo renegou a fé na obrigação de viver para o próximo, construindo um indivíduo que valoriza e atenta principalmente para as questões do “eu”: o eu conquistou seu direito de cidadania. O individuo neoliberal não vacila em expor o caráter individualista de suas preferências, antes condenado pela religião, que inspirava uma ética de compartilhamento, compaixão e complacência.

O mercado estimula a inversão dos valores morais. Os pecados se tornaram virtudes fomentadas pela lógica pós-modernista, e as virtudes se tornaram pecados, por incitarem um comportamento “humanitário” do “um” para com o “outro”. O indivíduo se “liberta” das amarras doutrinárias religiosas (ou pelo menos acredita que o faz) tornando inúteis os valores inerentes ao sacrifício, sejam eles relacionados ao imaginário da vida eternizada ou a meras finalidades profanas.

Este artigo é apenas uma introdução a um imenso conjunto de idéias, passeando de forma breve pelos conceitos da sociedade neoliberal e por uma análise sobre os valores religiosos e sua inversão histórica.  Apoiando-se na doutrina dos pecados capitais, a intenção é elucidar a inversão de valores e a relação entre moral e pós-modernismo. O enfraquecimento da noção religiosa, a crescente legitimação dos valores da liberdade pessoal e a elevação dos pecados capitais como parte essencial de sustentação à sociedade neoliberal, contribuíram e contribuem para a atual aceitação ou adoção de uma moral antes condenada pelo Catolicismo. Acredito que o sucesso dos sete pecados capitais é explicado por sua capacidade de adaptar-se às realidades em permanente transformação e por se constituírem em ferramenta de notável eficácia histórica em canalizar, sempre com fins “econômicos” de controle social, os impulsos humanos. Sendo assim, parte da construção identitária de um “mercado divino” e de um individuo “autossuficiente” se dá porque o individualismo ético reconhece necessária a inversão, quando conveniente, dos valores morais (pecados/virtudes) para sustentar-se e manter-se vigente.

REFERÊNCIAS 

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* Historiador e Mestrando em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Bolsista PROSUP. email: a_drummond@hotmail.com

[1] Amartia ou hamartia, “desmedida” no grego antigo. Sua significação: pecado (DELUMEAU, 2003, p. 358).

[2] Evágrio Pôntico ou Evágrio do Ponto, monge nascido no Ponto, na Capadócia, atual Turquia (c. 345 – c. 400).

[3] São Gregório Magno foi o 64º papa da Igreja Católica Romana, entre 590 e 604 (HUDDLESTON, 1909).

[4] Para Magno, os pecados ou vícios seguiam uma linearidade e uma hierarquia de nocividade para o amor divino. Magno também foi o responsável por introduzir a ideia de capital (do latim caput, cabeça). Para ele, os pecados capitais são como governantes que comandam um exército de outros pecados. Deles deriva uma horda de vícios que geram outros vícios, entrelaçados: os pecados seriam como os galhos mais fortes de uma árvore e as transgressões, as suas ramificações. Os sete pecados capitais são as principais falhas humanas, as maiores ofensas a Deus. A lista é encabeçada pelo orgulho, seguindo-se inveja, ira, tristeza, avareza, gula e luxúria.

[5] Na enumeração de Aquino, os pecados capitais são divididos em três categorias: males da alma, da mente e do corpo. A vaidade é um mal da alma; a inveja, a avareza, a acídia e a ira são males da mente e, por fim, a luxúria e a gula são males do corpo (Aquino, 2001). De todos os prazeres, acredito que os do corpo são os mais visíveis e fáceis de identificar.

[6] É importante mencionar a importância que a obra de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, teve para a consolidação da mentalidade do homem medieval e moderno, definindo e construindo de forma geográfica o além-túmulo (inferno, purgatório e paraíso).

[7] Para a Igreja, a acídia era um pecado extremamente grave, porque se referia diretamente a uma tristeza excessiva, que incapacitava o ser humano a realizar as tarefas devidas para com Deus. Hoje poderíamos compará-la com a depressão e até com a ociosidade não criativa. Jean Lauand (2000) argumenta que a substituição da acídia por preguiça trouxe um empobrecimento de significado, uma vez que a acídia medieval – e os pecados dela derivados – propiciariam uma clave precisamente extraordinária para a compreensão do desespero do homem contemporâneo; já a preguiça se atém apenas ao fato de não se estar propício ao trabalho.

[8]  O liberalismo, teoria filosófica iluminista, surgiu após a Revolução Francesa e trouxe na “razão” e na “liberdade” seus pontos fundamentais. Foi o liberalismo francês que propôs a separação do Estado e da Igreja, logo após a derrubada da monarquia. O liberalismo teve três momentos: primeiro como filosofia, segundo como tendência política e, por fim, como sistema econômico. Dentro dessas teorias, a primazia seria de elevar à categoria individual o pensamento do homem, criador de si mesmo e de sua própria história, ignorando de vez a intervenção direta das doutrinas religiosas (entre elas, a moral) para definir sua identidade no meio social. No início do século XX, com a Grande Depressão, o liberalismo entrou em descrédito.  (GALVÃO, 1997, pp. 54-55).

[9] Neste texto, utilizo o conceito de Frederic Jameson de pós-modernismo: “um novo estágio do capitalismo ou um capitalismo tardio” (JAMESON, 1985). De forma simplificada, seria a desconstrução dos conceitos ideológicos dominantes durante a Idade Moderna e a valorização do indivíduo e a efetividade da relação entre o indivíduo e o mercado.

[10] Cf. HARVEY, David. Condição Pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.

[11]A partir de 1970, a ideologia liberal retorna, desta vez como Neoliberalismo. É preciso salientar que o prefixo neo não se refere a uma nova corrente do liberalismo, mas sim à retomada de alguns preceitos liberais no contexto do pós-modernismo. “O centro de toda prática neoliberal é o mercado e, por conseguinte, o consumo.” (GALVÃO, 1997, p. 54-55).

[12] Cf. DUFOUR (2009, pp.78-80). Em minha abordagem me limitarei à relação de descarte entre o homem neoliberal e a religião.

[13] Para a Igreja, podemos extinguir nossos pecados através das virtudes, uma forma de reciclar, do ruim para o bom.

[14] Se antes, nas Idades Média e Moderna, o homem não cometia pecados porque temia o além-túmulo, a partir de Freud e da ideologia neoliberal, “cometer pecados” se torna parte de quem somos.

[15] Cf. HALL, Stuart. A identidade cultural da Pós-Modernidade. 7ªed. Rio de Janeiro: DP&A. 2003. O autor trabalha com o conceito de “descentração”, que seria uma fragmentação dos indivíduos e de suas identidades pelo mercado.

[16] O prazer é o ponto vital de todos os vícios, pecados e pulsões. É a busca pelos prazeres momentâneos que nos impulsiona a pecar. O prazer da vaidade está em despertar a sensação de inferioridade no outro ou de superioridade em si mesmo; o da inveja está diretamente relacionado à frustração daquele que invejamos; a avareza encontra sua satisfação no lucro; o prazer da acídia está na indiferença ou no “descumprimento”; o ápice da ira encontra-se na intolerância e na violência; o da luxúria, no sexo, e o da gula, no desregramento.

[17] Como diz Guinnes (2006, p. 18), “permissivo” foi capturado por Dostoievski, em Os irmãos Karamazov: se Deus estivesse morto e não houvesse vida futura, “nada mais seria imoral, e tudo seria permitido”. O termo “transgressivo” achou sua expressão clássica no lema pintado na parede da Sorbonne, em Paris, em 1968: “É proibido proibir”.

[18] São Tomás (2001, pp. 79-82) exclui a soberba da lista dos pecados capitais por considerá-la “megacapital”, a rainha de todos os outros. Dentre os sete capitais, a vaidade é a que mais se assemelha à soberba. Durante o medievo e parte da modernidade, o conceito de vaidade fazia alusão à altivez da nobreza, à superficialidade da sociedade de corte e à arrogância do clero acerca da intelectualidade. O sentido da palavra mudou na sociedade neoliberal ficando restrito somente a um desejo exagerado de admiração e culto ao corpo e à beleza física.

[19] Cf. ECO, Humberto. A história da Beleza: Rio de Janeiro: Record, 2004.

[20] Conceito utilizado por Vigarello (2006, p. 181) para definir o indivíduo como: “[...] um ser que não precisa mais se colocar do ponto de vista do conjunto; é aquele que a sociedade neoliberal instalou como novo centro de “coerência”, acentuando e estimulando seu sentimento de se sobressair em toda referência social”.

[21] Termo criado por Gramsci para conceitualizar os sistemas de produção em massa, iniciados em 1922. Este conceito define as inovações técnicas e organizacionais vinculadas à produção e ao consumo em massa (GRAMSCI, 1968).

[22] Vejo os números na sociedade neoliberal como uma representação simbólica da relação homem versus mercado.

[23] Existem inúmeras temáticas e vertentes a serem estudadas sobre a inveja contemporânea. Uma delas é a Teologia da Prosperidade.  Neste texto focarei a teoria marxista.

[24] A competição escrupulosa não é o campo onde se manifesta mais intensamente a inveja; quem aceita disciplinadamente regras, condutas morais, aprende também a aceitação. A questão principal, porém, é que na sociedade neoliberal, “aceitar” uma condição é cometer o pecado da preguiça, tão mal visto por essa sociedade em contínuo movimento. Por isso, a(s) “moral(ais)” que um dia valeram, são ignoradas nessa sociedade e tornam-se um malefício no caminho do sucesso. Cf. BONDER, Nilton. A Cabala da Inveja. Rio de Janeiro: Imago, 2004, para uma abordagem psicológica sobre o tema,

[25] Quando falo de “instinto natural” recorro à significação das pulsões de Freud.

[26] A dinâmica social dos valores liberais não tolheu o aparecimento de movimentos caracteristicamente definidos pelo espírito sectário e intolerante (LIPOVETSKY, 2005, p. 132).

[27] Por pensamentos progressistas me refiro a qualquer linha ideológica que contraria as definições sociais construídas pela Igreja. Entre eles, o Renascimento, o Iluminismo, o Liberalismo, etc.

[28] Cf. LE GOFF, Jacques; TROUNG, Nicolas. Uma história do corpo na Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

[29] Cf. BLACKBURN, Simon. Luxúria. São Paulo: ARX, 2005.

[30] Aqui me refiro ao que a religião considera parte do amor: a instituição do casamento, a fidelidade e as relações monogâmicas. (DUFOUR, 2008).

[31] Comprado por tudo que a sociedade neoliberal possa oferecer: pornografia, interação virtual e prostituição.

[32] A cultura contemporânea esvazia a moralidade de sua dimensão sexual, mas a reintegra pelo viés do protesto feminista; chancela a liberdade de expressão pornográfica, mas dá origem a novas imposições de censura, ainda que em nome da liberdade; deixa de pôr no pelourinho a sexualidade, mas reconstrói contradições e conflitos redibitórios acerca dos conceitos do que seria digno ou indigno da expressão sexual (LIPOVETSKY, 2005, p. 57).

[33] Os pecados do corpo, gula e luxúria, estão diretamente associados: a gula pode ser capaz de gerar a luxúria, seja através das bebidas ou da comida estimulante, “afrodisíaca”. (QUELLIER, 2011).

[34] Cf. LAMBOTTE, Marie-Claude. Estética da Melancolia. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

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23 anos, professor, barbudo e tatuado. Graduado em Filosofia pelo Ensino a distância da University of Edinburgh, graduado em História pela Universidade de Barra Mansa e pós-graduando Filosofia, membro fundador da Sociedade Racionalista, militante das causas das minorias e se aventura como filósofo nos tempos livres.

One Response to O Divino Mercado – as pulsões humanas no mundo neoliberal: como os sete pecados capitais se elevaram à categoria de virtude

  1. Jaime Azevedo disse:

    Excelente blog, parabéns. Textos com boa fundamentação ricos em informação, pesquisa bem feita. Continuem.

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