Kant e o problema teológico

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Para os teólogos, efetivamente algum deus (e o tipo de deus dependerá da denominação religiosa/cultural desse teólogo. Assim, se ele for muçulmano, pode usar, algum argumento para “provar” a existência de Alah e se for cristão, vejam só, usaria o mesmo argumento para “provar” a existência de Javé; ainda que argumentos per si, por mais consistentes que pareçam, não provam coisa alguma enquanto existência no mundo real e objetivo, uma vez que as próprias premissas desses argumentos podem ser controversas) criou o homem e a natureza – eles assumem, em geral, isso como sendo de antemão irrefutável. A verdade, seria assim, evidente. Logo, o erro seria o problema. O erro, e isso é bastante evidente na leitura dos filósofos da Escolástica, converteu-se em questão paralela à do pecado. Esta era a posição de Descartes, e antes dele dos filósofos da Escolástica. Na verdade, esta questão encontra-se presente em todos os filósofos clássicos, até mesmo Spinoza ou Leibniz. Kant, nesse particular, revela-se como grande pensador da modernidade, se levantando contra os obstáculos do obscurantismo, do fanatismo e da superstição  Kant foi fortemente influenciado por David Hume, conforme ele mesmo confessa em Prolegômenos: “Confesso francamente: foi a advertência de David Hume que, há muitos anos, interrompeu o meu sono dogmático e deu às minhas investigações no campo da filosofia uma orientação inteiramente diversa”. Kant, por fim, concluiu ao longo de suas análises, que todos os argumentos ontológicos da Escolástica eram falhos, uma vez que admitiam existência como um atributo necessário a um dado objeto de conhecimento e Kant chegou a conclusão (embora se mantivesse teísta pelo que ele considerava ser uma razão prática) de que existência não é um predicado e não se pode justificar a crença em deus de forma racional ( ao menos ele foi muito sincero ao admitir isso) e que, portanto, a proposição “deus existe” não tem de ser real de fato.

Para Kant a ideia de deus não deriva da experiência, ainda que ele a aceite como sendo racional (enquanto ideia ou proposição e nada mais); porém isso é algo bem diverso de ser real. Em princípio podemos aceitá-la como ideia possível, se dermos algum jeito de excluir os paradoxos ou ao atribuirmos (sem demonstração) premissas de contingência.  Nada impediria que aceitemos a ideia/proposição, na medida em que não implique qualquer contradição. Contudo, outra coisa bem diferente é pensar no real; na realidade objetiva do objeto de conhecimento proposto per si. Nesse caso a ausência de contradição não se mostra suficiente. Exige-se que se possa determiná-lo, verificá-lo.

De fato, para Kant, deus não se constitui exatamente numa ideia/proposição, mas num ideal. Da análise da ideia de deus que alguém possa fazer ou da percepção individual (conjetura) provocada pelo contato com o conhecimento, pelo vislumbre da imensidão do universo, da nossa insignificância perante ele, porém também da estonteante realidade que apesar disso tudo somos um componente único ou que cada ser é ele mesmo a representação da vastidão e das incertezas do universo, fazendo parte dele e, de certa forma, sendo ele, NÃO DERIVA, DE NENHUMA FORMA, A EXISTÊNCIA de um deus.

Como ressalta Jean Lacroix, a necessidade interna que experimentamos (tal como muitos demonstraram) NÃO produz qualquer consequência objetiva. Na verdade, trata-se de uma projeção de nossa necessidade de tudo compreender; e nisto, basicamente, se resume muito da fé teológica.

Objetivar, ou como diz Kant, hipotetizar uma ideia subjetiva num ser objetivo é precisamente a falta contra a qual nos previne toda a Crítica da Razão Pura (obra de Kant) e também o racionalismo crítico e toda a epistemologia racional contemporânea. Do ponto de vista do conhecimento puro, não se passa da ideia, mesmo se apresentada sobre a forma de um argumento ontológico, ao ser; não se passa de percepções pessoais ao ser.

Na verdade, a partir do momento em que Kant define o conhecimento não como uma determinação do sujeito pelo objeto, mas, ao inverso, como uma determinação do objeto pelo sujeito, fica totalmente excluída a possibilidade de se conhecer de pleno a realidade, tal como reforçado pelo Racionalismo Crítico de Karl R. Popper.
Neste sentido, kantiano, de que não dispomos jamais de um conhecimento absoluto, mas, apenas, de um CONHECIMENTO VERIFICÁVEL que, segundo Popper, o conhecimento tem de obedecer os critérios de verificabilidade e refutabilidade.

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One Response to Kant e o problema teológico

  1. Leonardo Lins disse:

    A ciência tem mostrado o caráter contra intuitivo da realidade, por mais que um religioso não consiga entender a teoria evolução, por exemplo.

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