A psicologia de Tetris

tetris

O segredo do popular jogo Tetris é que ele se aproveita do simples prazer que a mente tem em organizar coisas e usa isso contra nós.

Formas caem do céu e tudo o que você tem que fazer é controlar como elas caem e como encaixam umas nas outras. Uma premissa simples, mas acrescente uma música irritantemente viciante (baseada em uma tradicional canção russa chamada Korobeiniki, aparentemente) e você tem uma revolução em entretenimento.

Desde que Tetris foi lançado no mundo em 1986, milhões de horas foram perdidas jogando esse simples jogo. Desde então, nós vimos videogames crescer em poder, e com aparência de tudo desde Call of Duty a World of Warcraft. Ainda assim, jogos de quebra-cabeça como Tetris ainda têm um lugar especial em nosso coração. Por que eles são tão atraentes?

O escritor Jeffrey Goldsmith estava tão obcecado com Tetris que ele escreveu um famoso artigo perguntando se o criador do jogo, Alexey Pajitnov havia inventado uma “pharmatronic” – um vídeo game com a potência de uma droga viciante. Algumas pessoas dizem que depois de jogar o jogo por horas elas veem os blocos em seus sonhos ou prédios se mexendo nas ruas – um fenômeno conhecido como o Efeito Tetris. Tamanha é a tração mental que até já foi sugerido que o jogo pode prevenir flashbacks em pessoas com estresse pós-traumático.

Eu tive a minha própria fase de Tetris quando eu era um adolescente, e passei mais horas do que deveria tentando alinhar os blocos que caíam em sequências. Recentemente, eu comecei a refletir sobre a razão de jogos como Tetris serem tão atraentes. Minha conclusão? Isso tem a ver com um profundo impulso de organizar.

Muitos jogos são basicamente organização ritualizada. A sinuca (ou o bilhar) é um bom exemplo. A primeira pessoa faz uma bagunça (o espalhar das bolas) e então os jogadores se revezam apontando-as em direção aos buracos, em uma ordem muito particular. O Tetris adiciona um mecanismo de computador a esse cenário – não apenas o jogador tem que organizar, mas o computador continua jogando mais blocos do céu para aumentar a bagunça. Isso parece o exemplo perfeito de um exercício inútil – um jogo que não nos ensina nada de útil, não tem nenhum objetivo social ou físico maior, mas estranhamente nos mantém interessados.

Existe um fenômeno psicológico chamado o Efeito Zeigarnik, em homenagem à psicóloga russa Bluma Zeigarnik. Nos anos 30, Zeigarnik estava em um café e ouviu que os garçons tinham memórias fantásticas para pedidos – mas somente até os pedidos terem sido entregues. Eles podiam se lembrar dos pedidos de uma mesa de 12 pessoas, mas uma vez que a comida e a bebida atingisse a mesa eles se esqueciam deles instantaneamente, e eram incapazes de se lembrar o que estava tão firme na memória momentos antes. Zeigarnik deu seu nome a toda a classe de problemas em que tarefas incompletas grudam na memória.

O Efeito Zeigarnik é parte da razão pela qual shows de perguntas e respostas são tão atraentes. Você pode não se importar com o ano que em que a Corporação Inglesa de Radiodifusão foi fundada ou com a porcentagem de países que têm pelo menos um McDonald’s, mas uma vez que alguém tenha feito a pergunta, torna-se estranhamente irritante não saber a resposta (1927 e 61%, aliás). A pergunta gruda na mente, inacabada até que seja completa pela resposta.

Teoria do jogo

O Tetris prende nossa atenção por criar continuamente tarefas inacabadas. Cada ação no jogo nos permite resolver parte do quebra-cabeça, completando uma sequência ou sequências completamente, de modo que desapareçam, mas da mesma forma cria novas e inacabadas tarefas. Uma cadeia engatada de soluções parciais e novas tarefas não resolvidas podem facilmente se estender por horas, cada momento cheio do mesmo tipo de satisfação que coçar um comichão.

A outra razão pela qual Tetris funciona tão bem é que cada tarefa inacabada aparece ao mesmo tempo que a sua solução potencial – aqueles blocos continuamente caem do céu, cada qual sendo um problema e uma possível solução. Tetris é um mundo simples e visual, e soluções podem ser imediatamente tentadas usando as cinco teclas de controle (mover à esquerda, mover à direita, rodar para a esquerda, rodar para a direita e derrubar – claro). Estudos mostram que jogadores de Tetris preferem girar os blocos para ver se eles vão caber do que pensar se eles vão caber. Qualquer método funcionaria, claro, mas Tetris cria um mundo em que a ação é mais rápida que o pensamento – e isso é parte da chave de ser tão contagiante. Diferente de muito na vida, Tetris cria uma conexão imediata entre nossa percepção de como resolver um problema e os meios para começar a agir.

O Efeito Zeigarnik descreve um fenômeno, mas ele não dá exatamente uma razão de por que isso acontece. Isso é um truque comum de psicólogos, fingir que resolveram um enigma da mente humana ao dar-lhe um nome, quando tudo o que fizeram foi concordar sobre um nome para o mistério ao invés de desvendá-lo. Uma explicação plausível para o Efeito é que a mente é desenhada para se reorganizar em torno da busca de objetivos. Se esses objetivos são atingidos, então a mente se volta para outra coisa.

Esses jogos se aproveitam dessa orientação para objetivos ao frustrar-nos até que seja satisfeita. Tetris vai um passo além, criando uma cadeia contínua de frustração e satisfação de objetivos. Como um parasita esperto, Tetris se aproveita desse prazer básico de ter as coisas feitas e o usa contra nós.  Nós podemos continuar com isso, aproveitando as emoções de curto prazo de organizar aqueles blocos, mesmo enquanto uma parte mais sábia e mais reflexiva de nós sabe que o jogo é basicamente sem propósito. Mas todos os bons jogos são, certo?

Tradução da matéria “The psychology os Tetris”, publicada na BBC Future.

Link para a matéria original: http://www.bbc.com/future/story/20121022-the-psychology-of-tetris/2

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