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Deve ser muito triste viver sem o amor de Deus!

by / 5 Comments / 0 View / 8 de março de 2012

Como confiar em um ateu, se ele não crê? É um questionamento que tem muita força, principalmente nos Estados Unidos. Lá já se questionou se um católico poderia ser presidente, tendo em vista que um católico deve, moralmente, obedecer ao papa, pondo em risco a soberania nacional. Este questionamento hipotético tem tanto sentido como aquele primeiro, se não fosse sua carga de preconceito e total desconhecimento sobre os ateus e os católicos, causados pela falta de convivência.

Aqui no Brasil, naturalmente, o preconceito contra católicos, se há, não tem muita repercussão. Mas contra ateus é muito presente, principalmente nas igrejas evangélicas vindas dos Estados Unidos, e que trazem essa pior parte daquela cultura.

Também naturalmente, é entre as pessoas que já tiveram um relacionamento próximo com um ateu que se encontram as conclusões de que muitos ateus irão para o céu, e que isso não depende de crença, mas de atitudes. Essa certeza se sobrepõe a qualquer ódio preconceituoso vomitado por um pastor, pois, sem ela, seu deus não poderia ser considerado minimamente justo.

Por outro lado, muitos que não convivem com ateus têm sua desconfiança, e, ao se depararem com um, já vêm com diversos questionamentos. Muitas vezes, não o fazem com muita delicadeza, e a indelicadeza como resposta não é a atitude ideal, mas pode não ser muito fácil de controlar, e então somos tachados por isso.

O desconhecimento gera atitudes tão grotescas que pessoas que, sinceramente, acreditam que somos infelizes vêm dizer-nos isto, face a face, com requintes de desprezo. Não são elas capazes de dizer a uma pessoa órfã: “credo, sua vida deve ser muito triste sem mãe nem pai”, ou ao paraplégico: “poxa, não dá para você fazer nada”. A um ateu, porém, dizem, sem intimidade nenhuma e com muito orgulho de o fazerem: “deve ser muito triste viver sem o amor de Deus”.

Vi uma citação de Freud, na qual este dizia que a crença em um deus se deve ao desejo de um pai protetor e imortalidade, e serve como um ópio contra o sofrimento. É natural, portanto, que alguns ateus digam que acreditar em um deus talvez seja mesmo melhor, apesar disso ser muito difícil de confessar, tendo um monte de gente apontando as nossas caras com um orgulho prepotente de serem “mais felizes”. Eles, porém, estão longe de ser a maioria, pois esta sente-se melhor em conviver com a verdade, por um compromisso ético consigo mesmo – e não estou aqui querendo dizer o que é a verdade (apesar de ter todo o direito de fazê-lo, como qualquer um), mas se é esta a nossa opinião, mudá-la-emos por um processo racional, e não para nos sentirmos melhor.

Em termos de felicidade, cada um tem sua vida. Cada pessoa tem seus valores éticos e morais – não é à toa que existem tantas vertentes cristãs, pois quando se tem uma escritura em que tudo pode ser parábola e tudo pode ser literal, é a consciência individual, definidora do que é certo ou errado, que realiza a interpretação final. Assim, o que faz um ateu feliz depende de cada um. A mim, certamente me faria feliz uma sociedade livre, ou quase lá, de todos esses e outros preconceitos.

Celso Sakuraba Jr.
celso@celsosakuraba.com.br

(Mestrando em Direito Empresarial pela Universidade de Coimbra, Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Nasceu em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro e mora em Fortaleza, apesar de estar temporariamente em Coimbra, Portugal. Estudou em escola católica nos ensinos fundamental e médio e, no meio dos estudos, concluiu que deus não existe, mas que o importante mesmo é que existam respeito e tolerância. Namora uma bela evangélica.)

Ateia humanista secular, ex-missionaria cristã, cinéfila, apaixonada por arte, amante de literatura e filosofia, leitora compulsiva, autora do blog Vivendo e Construindo. Graduanda em Letras-Português pela Universidade Federal do Pará, Coordenadora da Aliança Estudantil Secularista UFPA, Diretora de movimento estudantil da Liga Humanista Secular do Brasil, Construindo a Assembleia Nacional dos Estudantes - Livre, Militante da Juventude PSTU (Socialista, SIM!).

5 Comment

  1. Aliás, este temor pessoal, se confirmou nas atitudes dos candidatos à presidência nas eleições de 2010: Dilma se curvou pro papa e pro talibã evangélico, Serra já não é confiável também..além de ter dito que o Ateísmo é como o tabagismo. Marina Silva é evangélica hipócrita q atira pra todos os lados, querendo dar uma de "tolerante quase-secularista", não confio naquela sem-vergonha imoral. Apesar d ser libertário + voltado um pouco pra direita..me vi compelido a votar no primeiro turno no Plínio, que pelo menos não tomou a religiosidade e o misticismo como discurso.

  2. Concordo q 1 católico na presidência é um risco, como qualquer protestante pentecostal ou histórico. Cristãos são um risco porq devem + obediência a deus do q compromisso com a constituição. Pelo menos funciona assim na cabeça dessa gente. Um evangélico daqueles bem crédulos – é o q + tem por aí – vai dizer "amém" a tudo q a sua igreja/ministério e seu pastor/presbítero falar e mandar. Um católico bem fervoroso – parece que não, mas é o que mais tem no Brasil também – vai obedecer e lamber as sapatilhas do papa sempre. Portanto, como Ateu Livre-Pensador, sou terminantemente contrário a um católico ou evangélico assumir a presidência, no caso do Brasil, pelo menos em princípio.

  3. "Lá já se questionou se um católico poderia ser presidente, tendo em vista que um católico deve, moralmente, obedecer ao papa, pondo em risco a soberania nacional."
    John Fitzgerald Kennedy foi o 35° presidente dos Estados Unidos (1961–1963) e era católico. Apesar disto Defendeu sem hesitar a Separação da igreja do Estado.
    E o "amor de Deus" significa a Morte.

  4. Celso
    Um texto perfeito, na forma e no conteúdo. Firme mas muito respeitoso.
    Sou um octogenário, ateu há setenta anos e casado com uma católica há sessenta.
    Frequentemente, quando "Deus" invade nossa conversa, trocamos alguns palavrões e vamos em frente…
    Dessa forma, sendo autenticamente nós mesmos, construímos uma família (3 filhos e 6 netos) razoável.
    Há uma versão de "dez mandamentos" para ateus dos quais o primeiro só tem uma palavra que é "ame".
    Sobre um ateu poder ser bom, independentemente de qualquer deus ou religião, como você defende,
    o que mais tem me divertido na vida é ver a cara dos que sabem que sou ateu quando eu retribuo o mal com o bem. Não foram muitas vezes, admito, mas foi gratificante.

  5. Excelente texto, parabéns. Parabéns mesmo.

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