Impactos Ambientais e Sociais Gerados por Belo Monte

Impactos Ambientais e Sociais Gerados por Belo Monte

by / 3 Comments / 7 View / 29 de dezembro de 2011

Sim, eu já ouvi falar sobre a hidrelétrica de Belo Monte, muito antes de um grupo de atores globais receberem dinheiro para fazer um comercial apelativo sobre isso. É claro que um impacto ambiental enorme será gerado e uma área enorme será inundada, mas tudo na vida tem o seu preço. Então, vamos analisar alguns dados com mais cuidado.

Em primeiro lugar: formas alternativas de geração de energia. Existem diversas maneiras de gerar energia elétrica, cada uma com o seu preço, seu impacto e seu potencial de geração. Tendo isto em vista vamos nos deter às tecnologias mais populares e economicamente viáveis: usinas termelétricas, nucleares, hidrelétricas, solares e eólicas. Não vou nem comentar o impacto ambiental gerado por empreendimentos do tamanho de Belo Monte pelas duas primeiras tecnologias, até porque o pessoal que está “indignado” com Belo Monte teria um ataque cardíaco. Vamos diretamente para usinas eólicas, você pode não saber mas existem investimentos nessa área no Brasil, aqui mesmo no Rio Grande do Sul existe a maior usina eólica da América Latina: o Parque Eólico de Osório. O mesmo é composto por 75 torres e tem uma capacidade de geração de 150MW, sendo que somente 34% dessa capacidade total é gerada (aproximadamente o mesmo percentual que causou tanta indignação em relação a Belo Monte). Essa questão entre capacidade total e capacidade gerada é ainda mais delicada em relação as usinas eólicas, uma vez que o regime de ventos é muito mais instável do que o regime de águas em um rio, e um país que construísse uma matriz energética somente baseado nessa tecnologia teria sérios problemas para manter uma geração constante em comparação com a demanda. Outro fato interessante é que Belo Monte irá gerar 12000MW, cada torre eólica de Osório gera 2MW de energia, portanto seriam necessárias 6000 torres geradoras de energia eólica, você já se perguntou se o Brasil tem um potencial eólico para instalar 6000 torres com uma capacidade de geração de 100% (sim, porque nessa conta estamos considerando a capacidade total de geração de Osório e não os 34% que realmente são gerados, se levarmos isso em consideração serão necessárias 18000 torres). Mais importante ainda, Osório foi construída com um investimento de R$ 670 milhões (sendo que boa parte, assim como Belo Monte, saiu do seu bolso), levando em conta o potencial total de geração seriam necessários R$ 53 bilhões para construir uma usina eólica do porte de Belo Monte (praticamente o dobro), e a situação fica ainda mais drástica se considerarmos os 34% que realmente são gerados, o que elevaria o valor para R$ 160 bilhões. Portanto usinas eólicas são sim uma alternativa mais limpa, mas levando em conta o potencial eólico brasileiro (incomparavelmente menor do que o potencial hidrelétrico) e o investimento necessário, essa tecnologia no momento só pode ser considerada uma forma de geração alternativa, não podendo substituir uma usina como Belo Monte.

Okay, mas e quanto a usinas solares? Qual o problema com elas? O problema com elas é simples: a tecnologia não está desenvolvida ao ponto de ser possível construir uma usina desse porte. Uma área muito grande teria que ser recoberta com painéis solares, a manutenção seria extremamente problemática e o investimento incrivelmente alto. Nesse cenário as usinas solares devem ser encaradas como uma alternativa privada de geração de energia, ou seja, é extremamente interessante que cada um instale alguns painéis solares gerando energia para suas casas e diminuindo a demanda na rede, desse modo inclusive você irá ver uma diminuição drástica na sua conta de luz que em alguns anos irá cobrir o investimento da compra dos painéis e representar uma verdadeira economia de energia. Porém quantas das pessoas que estão reclamando de Belo Monte realmente fazem a sua parte nesse cenário? Tudo bem, é um investimento relativamente alto instalar os painéis, mas e os artistas que estão tão indignados no vídeo? Quantos deles vão usar o dinheiro do cachê para comprar um painel solar?

E nesse ponto entramos em outra questão: o quanto você pode fazer para mudar a situação? O pessoal que ficou indignado com o vídeo já considerou diminuir os seus banhos de 1 hora para somente 10 minutos? Ou desligar o computar e a televisão que ficam ligados o dia inteiro e ir ler um livro? Ou desligar o ar condicionado? Percebam que eu não estou sendo hipócrita falando de situações inconcebíveis, são pequenas atitude totalmente aceitáveis que se feitas por um grande número de pessoas (como o número de pessoas indignadas com Belo Monte) iriam diminuir significativamente a demanda de energia e talvez tornar Belo Monte desnecessária.

Mas, e área desmatada e inundada por Belo Monte? Estimasse que uma área total de cerca de 500km² será inundada pelo lago de Belo Monte destruindo totalmente a flora e a fauna da região. Sim é um número expressivo, porém paralelamente a isso entre 2000 e 2005 uma área de mais de 22000km² foi desmatada na Amazônia por outros motivos, muitos deles de menor importância do que a geração de energia elétrica. E este problema do desmatamento é recorrente a muitos anos, porém atitudes em relação a isso são raras. É claro que ainda há o problema do deslocamento de algumas tribos indígenas, porém, é mais um efeito colateral aceitável e incomparável com o dano já ocasionado pela nossa sociedade e que merece uma discussão mais aprofundada, mas é preciso levar em conta que o dano ocasionado por Belo Monte é insignificante se levarmos em consideração o que já foi provocado. Próximo de Erechim existem comunidades indígenas, você já foi a alguma delas verificar a situação? Aprender com o legado cultural dessas comunidades? Tentar ajudar a sua conservação?

Os R$ 30 bilhões investidos lá ainda te incomodam? Você já parou para analisar a quantidade de dinheiro que será investida na Copa do Mundo de 2014 e a quantidade de dinheiro que será desviada nessas obras? Na próxima vez que você, gremista ou colorado, começar a discutir qual será o melhor estádio do estado, leve isso em conta, e nem levante o argumento de que o seu estádio será construído com recursos privados, pois ambos terão isenção de impostos e financiamento do BNDES.

Para concluir, a construção de qualquer usina hidrelétrica leva em conta inúmeras medidas para diminuir o impacto ambiental (é claro que não eliminá-o). O impacto será gerado, mas se considerarmos os benefícios ele se torna aceitável. Desenvolvimento sustentável é a exploração de bens naturais sem causar danos significativos ao meio ambiente, mas também sem limitar o desenvolvimento da sociedade. Belo Monte não será o fim da Amazônia, mas representará um passo significativo no desenvolvimento do país. Existem coisas muito mais graves ocorrendo naquela região e que mereceriam uma atenção desses mesmos artistas que subitamente viraram especialistas na geração de energia. E você que estava tão indignado e que pelo menos leu esse texto até aqui, é muito bem vindo para discutir essa situação mais profundamente, infelizmente 90% do pessoal que está protestando dificilmente irá ler até o fim do primeiro parágrafo, isso demonstra o comprometimento dos mesmos com a situação.

BIOGRAFIA: Sou estudante do 10o nível de Engenharia Elétrica na Universidade de Passo Fundo, localizada no Rio Grande do Sul. Nos últimos 10 anos desenvolvi uma postura crítica contra a alienação que vem dominando a sociedade, em especial, mas não exclusivamente, ocasionada pela religião. Deste modo, procuro disseminar o conhecimento científico, instigando o pensamento crítico e racional sempre que possível, tendo como objetivo principal não a imposição de ideias, mas sim a formação de pessoas capazes de construírem suas próprias opiniões e impressões baseadas na racionalidade.

CONTATO: fdsutili@gmail.com

Ateia humanista secular, ex-missionaria cristã, cinéfila, apaixonada por arte, amante de literatura e filosofia, leitora compulsiva, autora do blog Vivendo e Construindo. Graduanda em Letras-Português pela Universidade Federal do Pará, Coordenadora da Aliança Estudantil Secularista UFPA, Diretora de movimento estudantil da Liga Humanista Secular do Brasil, Construindo a Assembleia Nacional dos Estudantes - Livre, Militante da Juventude PSTU (Socialista, SIM!).

3 Comment

  1. Perfeito..

  2. Parabéns pelo texto, gostei da forma que você apresentou a questão.
    Ao final do meu comentário vou deixar um link para uma reportagem da FOLHA, onde o biólogo Antonio Hernandes (IBAMA) diz: "Quatro ou cinco espécies de peixes têm potencial de se extinguir […]".
    Eu não sei exatamente como funciona esse raciocínio, mas de alguma forma os peixes sofrem preconceito: sensacionalismo (não digo que necessariamente seja ruim esse sensacionalismo) quanto a extinção de espécies de certos mamíferos e répteis não é raro. Por que os peixes não merecem atenção?

    Realmente, depois de mais de década discutindo sobre a construção desta usina, acho que o governo deveria ter bolado alguma forma de cooperação com o cidadão, no fornecimento de painéis solares. Assim são vários coelhos com uma cajadada: o governo fornece painéis solares a um preço no mínimo acessível, o cidadão compra, instala em sua residência e, além da diminuição de gastos, ainda sai com o sentimento de que está ajudando o mundo e sem o sentimento de que seu dinheiro talvez possa ter sido usado de forma injusta (mais uma vez) pelos nossos governantes.

    Bem, talvez seja mais complicado que isso, mas não tanto assim… Quem sabe um dia essa ideia saia da minha cabeça e venha à minha realidade, e à realidade do Brasil e do mundo.

    Reportagem: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10

  3. Caro Tiago, sou contra a construção da forma como foi imposta. Contudo não sou contra por causa do seu impacto ambiental, mas sim pela politica hipócrita que temos em nosso pais.
    Só estou escrevendo este comentário para ressaltar uma coisa.
    Você se diz cientista, mas em seu texto você faz exatamente o que toda a mídia brasileira faz, argumenta muito bem os pontos que auxiliam a impor sua ideia mas deixa vago o restante do seu texto. Sou Doutorando e para dizer a verdade isso não é ciência, a Ciência é quando se coloca os argumentos completos de ambos os pontos, não impondo uma opinião, pois o conhecimento só se forma em uma pessoa quando este é aprendido por ela própria, isso que você coloca é opinião, que por sua vez, em minha opinião, é livre e muito valida na sociedade que vivemos.
    Parabéns pela iniciativa.
    Mathias

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