Filme: Detenção (2010)

Albert Bandura, um dos maiores psicólogos ainda vivos no mundo, dizia que o Behaviorismo, sistema da Psicologia criado pelo americano B. F. Skinner, possuía o defeito de imaginar o homem com um mero animal irracional; para Bandura, o modelo de Skinner transformava o indivíduo em um mero robô, que apenas desenvolvia determinado comportamento de acordo com o estímulo que lhe fosse apresentado, sem levar em conta a complexidade da mente humana e reduzindo-a a um mero “gravador” de comportamentos e de obediência para evitar a punição devida ou obter a recompensa desejada.

Será que esta teoria está completamente incorreta?

Em ‘Detenção’, filme baseado no famoso “experimento prisional de Stanford”, realizado na década de 1970, acompanhamos a história de um grupo de homens que se submetem a um experimento de análise do comportamento humano sobre situações de obediência à autoridades. Eles são divididos em dois grupos: os prisioneiros e os guardas. O primeiro grupo é totalmente privado de seus direitos civis mais básicos, enquanto ao segundo, cabe manter a ordem na prisão, sobre pena de serem excluídos do experimento caso não ajam com rigor.

Essa situação passa a gerar toda espécie de arbitrariedade; logo no primeiro dia, acontece uma rebelião. Os guardas, em represália, passam a torturar e abusar dos prisioneiros, chegando até mesmo a haver morte. Em suma, tanto os guardas como os prisioneiros passam a dissociar experimento da realidade e agem como se os atos brutais – especialmente vindos dos guardas – fossem banais e até necessários para a manutenção da ordem e garantia do fim do experimento – e do pagamento do grupo.

A pergunta que se faz nessa análise: o que diferencia este grupo de homens dos ratos estudados por Skinner na formulação de sua teoria? Nesse experimento, estão inseridos os principais postulados de Skinner: a relação estímulo resposta, o esquema de punição, o condicionamento dos seres; enfim, o fato que Detenção pretende demonstrar não é que somos basicamente animais sem vontade própria, mas sim que, quando expostos a ambiente e a situações que suprimem ou retiram nossas condições básicas de vivência, a racionalidade, ponderância, compaixão e capacidade de discernimento da espécie humana tornam-se meras teorias filosóficas face à realidade prática: nós, assim como os ratos de Skinner, somos seres que respondem aos percalços do nosso ambiente.

O filme em si é bem estruturado com uma história que, apesar de não ser totalmente fiel ao experimento original, consegue reproduzir de forma visceral o sofrimento e o desespero que o peso de uma farda, seja ela azul ou listrada, podem causar em um grupos de homens comuns, alguns com seus transtornos, mas todos vítimas daquela famosa frase que acaba, mesmo sem pretensão, se tornando o resumo geral de Detenção: “dê poder a um homem e você o verá fazer coisas horríveis. Tire de outro homem a sua dignidade e ele fará coisas ainda piores.”

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Ateia humanista secular, ex-missionaria cristã, cinéfila, apaixonada por arte, amante de literatura e filosofia, leitora compulsiva, autora do blog Vivendo e Construindo. Graduanda em Letras-Português pela Universidade Federal do Pará, Coordenadora da Aliança Estudantil Secularista UFPA, Diretora de movimento estudantil da Liga Humanista Secular do Brasil, Construindo a Assembleia Nacional dos Estudantes - Livre, Militante da Juventude PSTU (Socialista, SIM!).

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